Helen Jaine Gomes Borgens tornou-se a primeira diplomata quilombola da história do Brasil após ser aprovada no Concurso de Admissão à Carreira Diplomática (CACD). A conquista histórica foi viabilizada pelo sistema de cotas e marca um avanço inédito na representatividade dentro do Itamaraty.
Sobre o tema envolvendo quilombo em Goiás, além disso, A diplomacia brasileira alcançou um marco histórico de representatividade. Dessa forma, egressa do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás (UFG), Helen Jaine Gomes Borgens tornou-se a primeira quilombola aprovada no Concurso de Admissão à Carreira Diplomática (CACD). Com isso, nascida em Goiânia e criada no município de Simolândia, no interior de Goiás, a internacionalista, formada em 2025, agora é a primeira mulher quilombola da história do país a ingressar na carreira diplomática pelo Instituto Rio Branco, no concurso público que seleciona os novos diplomatas brasileiros e é considerado um dos processos seletivos mais difíceis do país.
Nesse sentido, helen pertence à comunidade do Retiro, território que compõe a Associação de Comunidades Quilombolas Castelo, Retiro e Três Rios. Portanto, filha de Joel Ferreira Borgens e Nailza Gomes de Oliveira Borgens, de origem simples, ela concluiu a educação básica em escola pública estadual, no Colégio Estadual Elvira Leão Barreto, adquirindo os conhecimentos que a levaram à universidade pública. Vale ressaltar que os aspectos relacionados a quilombo em Goiás continuam sendo acompanhados com atenção.
Quilombo em Goiás: O desafio dos estudos no interior: “Era Eu e Deus”
Em seguida, após concluir o bacharelado em Relações Internacionais na Universidade Federal de Goiás (UFG), Helen retornou a Simolândia para se dedicar inteiramente à preparação para o concurso. De acordo com as apurações, O percurso rumo à aprovação exigiu disciplina autodidata e enfrentamento de grandes limitações materiais. Esse ponto reforça a repercussão gerada em torno de quilombo em Goiás nos últimos dias.
Além de enfrentar períodos intensos de ansiedade generalizada que por vezes paralisaram seus cronogramas de estudo, a jovem precisou lidar com o isolamento educacional da região. “Aqui [em Simolândia] é interior do interior. Inglês, por exemplo, tive que estudar sozinha, porque não havia escola nem professor de inglês realmente preparado para ensinar. Por outro lado, todo o conhecimento além do básico tuve que buscar por conta própria. Vale destacar que não tive professores nem ninguém para orientar, porque simplesmente não existia essa estrutura aqui. Sendo assim, era eu e Deus”, conta Helen. Especialistas destacam que novas atualizações sobre quilombo em Goiás devem surgir em breve.
O despertar da vocação
A primeira faísca de interesse pela diplomacia surgiu em 2017, durante as aulas de História do professor João Daniel, em um cursinho comunitário voltado ao Enem. No entanto, na época, a carreira diplomática parecia uma realidade inalcançável para a estudante.
Já matriculada na universidade pública, o sentimento de distanciamento da área voltou a se manifestar, e Helen chegou a cogitar o abandono do curso. A persistência veio por insistência familiar. A mãe pediu que a filha continuasse por mais um semestre letivo. Foi nessa etapa que Helen cursou a disciplina de Política Externa Brasileira, matéria decisiva que reavivou seu entusiasmo pelos estudos internacionais e recolocou a carreira diplomática em seu horizonte.
Por meio da universidade, a estudante teve o primeiro contato com o Ministério das Relações Exteriores. “A UFG me deu a oportunidade de conhecer o curso e também de fazer uma viagem ao Itamaraty, que me permitiu ver de perto como funciona [a diplomacia]”, lembra Helen.
Para dimensionar a exigência da seleção, a estudante chegou a imprimir os cadernos de provas do concurso de 2023, encarando o rigor do processo antes de iniciar o planejamento definitivo que culminou em sua aprovação. A dificuldade da prova a fez duvidar se valia a pena seguir no sonho. Apesar do tamanho do obstáculo, ela não desistiu.
O pioneirismo das cotas
A aprovação de Helen Borgens consolida a aplicação prática da legislação de cotas em certames públicos federais, sancionada em 2025. A edição de 2026 do CACD foi a primeira da história a assegurar reservas de vagas específicas voltadas a candidatos indígenas e quilombolas. Das 60 vagas abertas na seleção geral, duas foram destinadas a indígenas e uma reservada para candidatos quilombolas, posto conquistado por Helen.
O concurso do Instituto Rio Branco é tido como um dos exames públicos mais concorridos e complexos do Brasil, selecionando os novos diplomatas brasileiros. Com remuneração inicial superior a R$ 20 mil, é voltado para profissionais com qualquer graduação superior completa.
O processo seletivo divide-se em duas fases eliminatórias. A primeira fase é objetiva e exige domínio em oito áreas do conhecimento, abrangendo Língua Portuguesa, História do Brasil, História Mundial, Geografia, Língua Inglesa, Política Internacional, Economia e Direito. A segunda fase é discursiva, composta por questões dissertativas nas mesmas matérias da etapa anterior (excetuando-se História Mundial), somadas a provas discursivas de Língua Espanhola ou Língua Francesa.
Antes da atuação definitiva do cargo, Helen passará por um ciclo de formação profissional no Instituto Rio Branco com extensão de três a quatro semestres, incluindo estágio supervisionado no Itamaraty no último período. Após a formatura na academia diplomática, ela assumirá o posto de Terceira Secretária, primeiro degrau da carreira.
A voz quilombola na política externa e o sonho de ser embaixadora
Para a recém-aprovada, o ingresso no Ministério das Relações Exteriores representa abrir portas para realidades historicamente marginalizadas nos círculos de decisão nacional. “Para mim é uma honra, porque é uma categoria pouco representada, com pouca voz, que as pessoas não dão muito valor, não conhecem muito a história e nem procuram saber sobre a história dos quilombos, das pessoas que cresceram na região, de como elas fazem para crescer na vida”, destaca Helen.
Ao projetar seu futuro nas relações exteriores do país, a nova diplomata goiana expressa o desejo de construir uma trajetória sólida e alcançar postos de liderança. “Acho que eu quero ir mais devagar, mas, obviamente, se for para dizer um sonho, todo mundo quer chegar a ser embaixador. Então, se um dia eu chegasse ao posto de embaixadora, sendo a primeira quilombola a passar no concurso, eu ficaria muito feliz. Mas, no geral, quero ser uma boa diplomata e quero representar esse Brasil que é pouco representado”, pontuou.
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