Além disso, muito antes de existir WhatsApp, os moradores da Cidade de Goiás, antiga capital do estado, tinham um jeito curioso de descobrir que o padre estava atrasado para a missa: bastava ouvir os sinos da igreja. Dessa forma, O aviso tinha até nome, “escorrega-mingau”, e foi criado por Benedito de Sá Efigênia, um homem negro que passou mais de 60 anos como sineiro da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte. Com isso, as badaladas também anunciavam mortes e celebrações, em uma época na qual o som das igrejas funcionava como um meio de comunicação para a população.
Nesse sentido, benedito tinha outra habilidade que chamava a atenção dos moradores. Portanto, quando se desentendia com o padre, conseguia demonstrar sua insatisfação sem dizer uma palavra: anunciava a missa com um toque triste, arrastando o badalo, peça metálica que produz o som, pela parte interna do sino. Em seguida, sua maneira de tocar era tão característica que as pessoas reconheciam quando ele estava na torre, mesmo sem enxergá-lo. Vale ressaltar que os aspectos relacionados a padre estava atrasado continuam sendo acompanhados com atenção.
De acordo com as apurações, as histórias foram recuperadas por Clovis Carvalho Britto, da Universidade de Brasília (UnB), e Rafael Lino Rosa, pesquisador e sineiro da Cidade de Goiás, em um estudo acadêmico publicado em 2020. Por outro lado, A pesquisa mostra que os sons faziam parte da rotina dos moradores e carregavam significados aprendidos ao longo da vida.
Padre estava atrasado: O homem que fazia os sinos falar
Vale destacar que nascido em 1891, Benedito era filho de uma mulher que havia sido escravizada e aprendeu ainda criança a tocar os sinos. Sendo assim, O conhecimento adquirido na infância se transformou em um ofício que exerceu por mais de seis décadas, principalmente na Igreja da Boa Morte. Com o passar dos anos, desenvolveu um estilo próprio, capaz de transmitir mensagens e expressar sentimentos por meio das badaladas.
O “escorrega-mingau” não era a única curiosidade do repertório dos sineiros da antiga capital. A pesquisa acadêmica também registra nomes como “Vira Mingau”, “Vaga-Lume Cai, Cai” e “Moacir”, associados à diferentes maneiras de executar os toques. Cada sequência exigia habilidade para controlar o ritmo, a força e os intervalos entre as batidas.
A história de Benedito também revela a participação de trabalhadores negros na formação das tradições religiosas brasileiras. Segundo a pesquisa, homens escravizados atuavam como sineiros em cidades do período colonial e incorporavam ritmos de origem africana aos sons das igrejas.
O sino também revelava quem havia morrido
Na tradição da Cidade de Goiás, nem todas as mortes eram anunciadas da mesma maneira. Quando morria um homem, o sino maior começava a tocar; no caso de uma mulher, os menores tinham prioridade. Para as crianças, chamadas de “anjinhos” no costume católico, eram utilizados apenas os sinos pequenos, em uma sequência diferente daquela destinada aos adultos.
O significado não dependia apenas do volume das badaladas, mas também da ordem e do ritmo dos sons. Quem conhecia os códigos conseguia identificar o tipo de acontecimento anunciado, mesmo sem receber a notícia diretamente, função comparada ao rádio pela historiadora Ana Lúcia de Abreu Gomes.
Onde fica a igreja que guardou essa história?
A Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte fica na Rua Luiz do Couto, no Centro Histórico da Cidade de Goiás, em frente à Praça do Coreto. O templo foi concluído em 1779 pela Irmandade dos Homens Pardos e integra o conjunto histórico reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco em 2001.
O edifício passou a abrigar o Museu de Arte Sacra da Boa Morte no fim da década de 1960, reunindo mais de 900 peças, incluindo imagens religiosas, objetos utilizados nas missas, prataria e obras do escultor goiano Veiga Valle.
Quando os sinos se calaram, moradores sentiram falta
A importância das badaladas ficou evidente em 2017, quando os sinos da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos deixaram de anunciar as horas e os intervalos. A interrupção ocorreu em meio a dificuldades de manutenção e o silêncio provocou reclamações entre moradores, com os toques retornando em 2019.
Com a chegada dos celulares e relógios digitais, a função dos sinos mudou, mas a história de Benedito mostra que, antes da tecnologia moderna, as notícias já podiam ser dadas com algumas badaladas na torre.
Para mais detalhes e apuração completa, consulte a fonte da notícia.
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