Quando a Justiça perde a confiança

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(Foto: Antonio Augusto/STF)

O problema não é apenas um Supremo Tribunal Federal sob suspeita. É o que acontece quando uma instituição pode continuar funcionando enquanto perde a confiança de quem deveria respeitá-la.

Soberania é, entre outras coisas, o monopólio legítimo da violência. Prender, investigar, confiscar, restringir a liberdade. O Estado pode fazer isso porque existe uma coisa chamada legitimidade.

Quando ela desaparece, sobra a força.

E aí o Supremo corre o risco de ser visto como aquele velho xerife de filme de faroeste: usa a lei, mas ninguém sabe muito bem para quem.

Cada decisão passa a ser interpretada pela pergunta mais brasileira possível: “Isso ajuda quem?”

É assim que uma instituição deixa de ser árbitro e vira jogador.

O problema é que a crise de confiança não termina com uma eleição. Troca o presidente, trocam-se os inimigos, mas permanece a disputa pelo controle das instituições.

E democracia sem confiança vira apenas um procedimento.

Hobbes sabia que a barbárie não precisa ser uma multidão quebrando tudo na rua. Pode ser muito mais elegante. Compra de juiz, acordos milionários, lavagem de dinheiro, crime organizado entrando na economia.

A barbárie moderna usa terno.

O cidadão comum não acompanha tudo isso. Está pagando boleto, trabalhando, cuidando dos filhos. Mas percebe uma coisa: ninguém parece confiável.

E quando ninguém é confiável, a República começa a virar propriedade particular.

É a velha privatização do público.

A diferença é que, desta vez, ninguém precisa colocar uma placa dizendo “vende-se”.

Basta continuar funcionando.

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