Quando a Justiça perde a confiança
O problema não é apenas um Supremo Tribunal Federal sob suspeita. É o que acontece quando uma instituição pode continuar funcionando enquanto perde a confiança de quem deveria respeitá-la.
Soberania é, entre outras coisas, o monopólio legítimo da violência. Prender, investigar, confiscar, restringir a liberdade. O Estado pode fazer isso porque existe uma coisa chamada legitimidade.
Quando ela desaparece, sobra a força.
E aí o Supremo corre o risco de ser visto como aquele velho xerife de filme de faroeste: usa a lei, mas ninguém sabe muito bem para quem.
Cada decisão passa a ser interpretada pela pergunta mais brasileira possível: “Isso ajuda quem?”
É assim que uma instituição deixa de ser árbitro e vira jogador.
O problema é que a crise de confiança não termina com uma eleição. Troca o presidente, trocam-se os inimigos, mas permanece a disputa pelo controle das instituições.
E democracia sem confiança vira apenas um procedimento.
Hobbes sabia que a barbárie não precisa ser uma multidão quebrando tudo na rua. Pode ser muito mais elegante. Compra de juiz, acordos milionários, lavagem de dinheiro, crime organizado entrando na economia.
A barbárie moderna usa terno.
O cidadão comum não acompanha tudo isso. Está pagando boleto, trabalhando, cuidando dos filhos. Mas percebe uma coisa: ninguém parece confiável.
E quando ninguém é confiável, a República começa a virar propriedade particular.
É a velha privatização do público.
A diferença é que, desta vez, ninguém precisa colocar uma placa dizendo “vende-se”.
Basta continuar funcionando.
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