Para o Enem 2026, marcado para os dias 8 e 15/11, a proximidade da data intensifica as especulações sobre o tema da redação. As eleições deste ano aparecem no topo das apostas de muitos candidatos, mas essa expectativa deve ser tratada com cautela.
As eleições de 2026, por si só, são vistas como um evento pontual, o que torna pouco provável que o assunto seja o tema central da redação do Enem.
Para virar proposta de prova, o assunto precisa de um recorte mais amplo que permita analisar causas, consequências e propostas de intervenção.
Por isso, a tendência é que o exame aborde desdobramentos democráticos mais profundos, como o combate à desinformação política, a violência de gênero na política, a sub-representação de minorias, a polarização, o impacto das redes sociais na opinião pública e a participação dos jovens na democracia.
Temas com mais chance
Cinco grandes eixos são apontados: democracia, informação e cidadania digital; proteção da infância no ambiente digital; adaptação climática e justiça ambiental; trabalho, educação e inteligência artificial; e direitos, inclusão, memória e pertencimento.
Especialistas dizem que o bom candidato aprende a enxergar conexões entre esses eixos.
A História, no Enem, raramente aparece como álbum de datas; ela aparece como explicação da realidade. Esses eixos são especialmente produtivos porque atravessam várias disciplinas. Por exemplo, clima também é economia e saúde; inteligência artificial também é ética e trabalho; cultura também é identidade e distribuição de poder.
Entre os assuntos mais discutidos em escolas e cursinhos preparatórios, três se sobressaem dentro desses eixos: como proteger crianças no ambiente digital, de que forma enfrentar as mudanças climáticas e de que maneira garantir a confiabilidade das informações.
O cenário legislativo fortalece o primeiro desses temas. Em 2025, o Brasil sancionou a Lei nº 15.211, batizada de Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, que passou a vigorar a partir de março de 2026.
O assunto reflete que a nova lei poderia ressignificar o debate em recortes como os desafios para garantir o desenvolvimento saudável de crianças em uma sociedade conectada, a responsabilidade das plataformas na proteção de usuários vulneráveis ou os impactos da economia da atenção sobre a infância.
Paralelamente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reformulou suas normas relativas ao uso de inteligência artificial, à identificação de conteúdos sintéticos e ao combate a deepfakes e notícias falsas.
No campo das mudanças climáticas, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgou seu relatório mais recente com foco na região da América Latina e do Caribe, documentando recordes de calor, secas, eventos de chuva extrema e o recuo de geleiras.
No geral, o estudante deve acompanhar o que aconteceu, mas também perguntar: que direito está em jogo, quem é mais afetado, quais são as causas históricas e que instituições possuem responsabilidade sobre esse problema?
O que a história recente do Enem revela
O histórico recente do exame revela uma tendência: o Enem costuma eleger questões de natureza estrutural e duradoura.
A edição de 2022 voltou-se para o reconhecimento de comunidades e povos tradicionais; a de 2023 colocou em evidência o trabalho de cuidado feminino, historicamente invisibilizado.
Já em 2024, o tema escolhido foi a valorização da herança africana, enquanto 2025 trouxe para o centro do debate as perspectivas sobre o envelhecimento na sociedade brasileira.
Nenhum desses temas foi a pauta mais quente do ano em que a prova foi aplicada.
Especialistas e educadores explicam que a prova costuma se afastar um pouco do ruído cotidiano para enxergar um problema estrutural.
Não há atalho para adivinhar o assunto. O caminho é entender os problemas por trás dos temas, não decorar possibilidades.
*estagiária sob supervisão de Carolina Ferreira
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