Home / Ultimas Noticias / Ações de Bukele, endossadas pela direita, podem ser replicadas no Brasil?

Ações de Bukele, endossadas pela direita, podem ser replicadas no Brasil?

Ações de Bukele, endossadas pela direita, podem ser replicadas no Brasil?
Arte/Metrópoles – Gui Prímola
feed-image-1788600912 Ações de Bukele, endossadas pela direita, podem ser replicadas no Brasil?

A política de segurança pública do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, tornou-se uma das principais referências para candidatos de direita nas eleições brasileiras de 2026.

Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) incorporaram ao discurso propostas de endurecimento penal, ampliação do sistema prisional, retomada de territórios dominados por facções e combate mais agressivo ao crime organizado.

A inspiração, porém, encontra um limite central no Brasil: a Constituição de 1988. Embora os candidatos recorram ao modelo salvadorenho como símbolo de uma política de “tolerância zero”, as medidas que permitiram a Bukele promover prisões em massa envolvem restrições a garantias fundamentais que não poderiam ser simplesmente reproduzidas no país.

A avaliação é da professora de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas, Jenifer Moraes. Ao Metrópoles, ela explicou que o modelo salvadorenho é incompatível com a estrutura constitucional brasileira e também enfrenta obstáculos práticos diante das características do crime organizado no país.

Entre no canal de WhatsApp
do Metrópoles

“O estado de exceção implementado por ele retirou uma série de garantias fundamentais que nós temos aqui”, afirmou a professora, citando entre elas o direito ao habeas corpus, o acesso à defesa, o contraditório e a ampla defesa.

Modelo Bukele

  • Nayib Bukele chegou à Presidência de El Salvador em 2019 e fez da segurança pública uma das principais bandeiras de seu governo.
  • Após uma escalada de violência em 2022, decretou um regime de exceção que ampliou os poderes de prisão e levou a um encarceramento em massa.
  • A medida foi associada à forte queda dos homicídios, mas também provocou denúncias de tortura, detenções arbitrárias e outras violações de direitos humanos.
  • O CECOT, megapresídio de segurança máxima, tornou-se símbolo da política.

Leia também

  • Brasil

    Ao lado de ministro de Bukele, Flávio diz que “tem pouco preso no Brasil”

  • Igor Gadelha

    Renan Santos fez intensivão sobre Bukele antes de sabatina do JN

  • Mundo

    Com onda de direita, Trump impõe ação contra narcotráfico na América do Sul

  • Mundo

    EUA diz que designação de PCC e CV não amplia autoridade militar

Flávio quer meio milhão de novas vagas

Entre os candidatos brasileiros, Flávio Bolsonaro é um dos que fazem referência mais direta ao modelo salvadorenho. Após se reunir com o ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro, o candidato defendeu a ampliação da população carcerária e afirmou que o Brasil deveria ter mais presos.

A proposta apresentada por Flávio prevê a construção de cinco presídios federais de segurança máxima inspirados no modelo de El Salvador. As novas unidades, somadas aos cinco presídios federais existentes, formariam o chamado Complexo Federal de Segurança Máxima, batizado de TREVA.

O plano também prevê a criação de meio milhão de novas vagas no sistema prisional brasileiro em quatro anos. A intenção declarada é retirar líderes de organizações criminosas de circulação e impedir que comandem facções de dentro das penitenciárias.

O programa propõe ainda bloqueio de ativos e combate à lavagem de dinheiro das facções, redução da maioridade penal, endurecimento das penas, monitoramento eletrônico de agressores de mulheres, aumento da presença das forças de segurança nas fronteiras e instalação de mais de 1 milhão de câmeras em todo o país.

Renan Santos: “Guerra ao crime”

O programa de governo de Renan Santos, do Missão, adota uma linguagem ainda mais próxima da ideia de guerra contra organizações criminosas.

O documento afirma que PCC e Comando Vermelho se transformaram em estruturas econômicas de grande escala, com atuação em diferentes setores e capacidade de controle territorial.

A proposta prevê a criação de um regime jurídico específico para integrantes de organizações classificadas como criminosas, além de mecanismos como restrição de direitos, tribunais especializados e medidas mais duras de confisco patrimonial.

O programa também prevê operações de retomada territorial, uso das Forças Armadas em determinadas circunstâncias e construção de superpresídios de segurança máxima inspirados no CECOT.

Ao mesmo tempo, Renan propõe reconhecimento facial, drones, integração de bancos de dados e inteligência voltada à identificação de redes criminosas.

É justamente nesse ponto que aparece uma das diferenças em relação à experiência salvadorenha: o programa tenta construir um arcabouço jurídico próprio para justificar as medidas no contexto brasileiro, em vez de propor simplesmente a reprodução do estado de exceção de Bukele.

Zema defende presídios

O programa do mineiro prevê a construção de presídios de segurança máxima em regiões remotas e isoladas, destinados ao confinamento de integrantes de facções.

Zema também propõe classificar organizações criminosas como terroristas e utilizar de forma integrada as Forças Armadas, as polícias estaduais e a Polícia Federal para recuperar territórios controlados pelo crime organizado.

Na legislação penal, o plano prevê redução da maioridade para 16 anos, possibilidade de responsabilização de pessoas ainda mais jovens em situações específicas e alterações no cumprimento das penas.

Apesar da aproximação retórica com Bukele, Zema e Renan Santos passaram a destacar, quando questionados sobre aspectos mais controversos do modelo salvadorenho, que eventuais medidas brasileiras deveriam respeitar a Constituição e os direitos humanos.

feed-image-1788600913 Ações de Bukele, endossadas pela direita, podem ser replicadas no Brasil?5 imagensfeed-image-1788600913-1 Ações de Bukele, endossadas pela direita, podem ser replicadas no Brasil?feed-image-1788600913-2 Ações de Bukele, endossadas pela direita, podem ser replicadas no Brasil?feed-image-1788600913-3 Ações de Bukele, endossadas pela direita, podem ser replicadas no Brasil? Ações de Bukele, endossadas pela direita, podem ser replicadas no Brasil?1 de 5

Interior da prisão de segurança máxima

Francisco Gomez de Villaboa/WWD via Getty Image Ações de Bukele, endossadas pela direita, podem ser replicadas no Brasil?2 de 5

Candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL)

VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto Ações de Bukele, endossadas pela direita, podem ser replicadas no Brasil?3 de 5

Candidato do Missão à Presidência da República, Renan Santos

VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto Ações de Bukele, endossadas pela direita, podem ser replicadas no Brasil?4 de 5

Romeu Zema

Luis Nova/Metrópoles Ações de Bukele, endossadas pela direita, podem ser replicadas no Brasil?5 de 5Arte/Metrópoles

O problema

Para além da questão constitucional, existe uma diferença estrutural entre o crime organizado brasileiro e as gangues que dominaram El Salvador. As gangues salvadorenhas — principalmente MS-13 e Barrio 18 — consolidaram seu poder a partir de estruturas territoriais menores, com forte presença comunitária e atuação em atividades como extorsão e controle local.

No Brasil, organizações como PCC e Comando Vermelho possuem estruturas complexas, com atuação que ultrapassa o território nacional e participação em mercados transnacionais de drogas, armas e lavagem de dinheiro.

Há ainda uma diferença fundamental no sistema penitenciário.

Enquanto o governo Bukele utilizou as prisões como instrumento de neutralização das gangues, no Brasil parte das principais organizações criminosas nasceu dentro do próprio sistema carcerário. PCC e Comando Vermelho surgiram em presídios e, ao longo das décadas, transformaram as penitenciárias em espaços de articulação e recrutamento.

Para Jenifer Moraes, essa característica torna especialmente problemática a ideia de simplesmente ampliar o encarceramento.

“O presídio em si, ele também gera violência”, afirmou.

Segundo ela, um aumento indiscriminado das prisões, sem capacidade estatal para controlar o sistema penitenciário, poderia fortalecer as próprias organizações que se pretende combater.

A Constituição de 1988 estabelece garantias como devido processo legal, ampla defesa, contraditório e habeas corpus. Medidas adotadas por Bukele durante o estado de exceção salvadorenho entrariam em choque com esses princípios, segundo a avaliação jurídica apresentada ao Metrópoles.